
A tradução, pra mim, começou muito antes do meu primeiro trabalho profissional
- Kauana Mota
- há 14 horas
- 3 min de leitura
Sempre gostei de observar como as pessoas enxergam o mundo.
Viajar desperta isso em mim. Aprender um novo idioma também.
De repente, você percebe que aquilo que parecia tão natural para você não costuma ser para outra pessoa. As palavras mudam. As expressões mudam. A forma de se comunicar muda. E, junto com tudo isso, muda também a maneira de interpretar a realidade.
Acho que foi aí que a tradução entrou na minha vida.
Não no dia em que fiz minha primeira tradução profissional. Nem quando entrei na faculdade ou comecei a pós-graduação.
Ela começou muito antes.
Começou na curiosidade de entender por que uma mesma ideia pode ser expressa de formas tão diferentes. Na vontade de descobrir como outras culturas enxergam o mundo. E na percepção de que aprender um idioma nunca significou apenas aprender palavras.
Com o tempo, vieram a graduação em Letras, a pós-graduação em Tradução e o intercâmbio na Irlanda. Cada uma dessas experiências ampliou meu olhar de um jeito diferente. Mas nenhuma delas, isoladamente, explica por que escolhi a tradução.
O que realmente me aproximou dela foi a curiosidade.
A curiosidade de pesquisar um termo até compreender por que ele foi escolhido. De entender por que uma expressão faz sentido em uma cultura e perde completamente o significado em outra. De perceber que traduzir nunca foi apenas passar palavras de um idioma para outro.
Talvez seja por isso que meus últimos artigos tenham falado tanto sobre comunicação.
Escrevi sobre I feel blue, sobre termos da tradução médica como tenderness e culture, sobre um comunicado publicado em italiano e sobre a entrevista de Carlo Ancelotti. À primeira vista, eram assuntos diferentes. Hoje percebo que todos falavam da mesma coisa: da forma como construímos significado e tentamos compreender o outro.
E foi justamente isso que a tradução me ensinou.
Ela me mostrou que conhecer outro idioma é fascinante, mas compreender como diferentes pessoas e culturas enxergam e significam o mundo é ainda mais.
Na tradução médica, essa percepção se torna muito clara. Um termo aparentemente simples pode assumir um significado completamente diferente dependendo do contexto. Traduzir, nesses casos, não é apenas escolher uma palavra equivalente. É compreender a informação, respeitar o contexto e permitir que ela chegue ao outro da forma como foi pensada.
Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido enxergar a tradução apenas como uma profissão.
Para mim, ela sempre foi uma ponte.
Uma ponte para conhecer culturas às quais talvez eu não tivesse acesso de outra forma. Uma ponte para aproximar pessoas que não compartilham o mesmo idioma. Uma ponte para permitir que um paciente compreenda uma informação importante, que um pesquisador compartilhe conhecimento ou que uma empresa consiga dialogar com outra.
No fim das contas, acho que a tradução nunca foi apenas sobre idiomas.
Sempre foi sobre pessoas.
E talvez seja por isso que ela tenha começado muito antes da minha primeira tradução.
Mas existe também o movimento contrário.
Se toda a curiosidade, as experiências e a forma como eu enxergava o mundo me acompanharam até a tradução, os textos que encontrei pelo caminho também passaram a ampliar o meu próprio olhar.
E foi dessa inquietação que nasceu outra pergunta: quanto de nós levamos para aquilo que traduzimos e quanto daquilo que traduzimos também passa a fazer parte de nós?
Foi sobre isso que escrevi em https://translations-dreams.com/post/a-tradução-reflete-o-tradutor-ou-o-tradutor-é-moldado-pela-tradução.
E, se algum desses textos já despertou uma curiosidade em você ou ajudou a enxergar a tradução de outra forma, compartilhe com alguém que também possa se interessar. E, se quiser acompanhar as próximas reflexões, me encontre também no Instagram da Translations Dreams.






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