
A tradução reflete o tradutor ou o tradutor é moldado pela tradução?
- Kauana Mota
- há 1 dia
- 2 min de leitura
Quem me segue talvez tenha visto o post de quarta, em que falei sobre os aplicativos de aprendizagem de idiomas. Ferramentas desse tipo costumam ser muito úteis, principalmente no início do contato com uma língua estrangeira. Elas ajudam a criar familiaridade, ritmo e alguma segurança inicial. O mesmo pode ser dito da inteligência artificial: quando bem utilizada, pode ser uma aliada no processo.
Mas nenhuma dessas ferramentas existe sozinha.
Elas não substituem o professor, que direciona e amplia a leitura do mundo.
Não substituem a leitura, que forma repertório, sensibilidade e a crítica.
E não substituem a vivência, que dá sentido real à língua fora do exercício.
A língua não se constrói apenas por repetição. Ela se constrói por relação.
É nesse ponto que tudo começa a se convergir. Aplicativos, tecnologia, leitura, experiência, escuta. Quando essas camadas se encontram, o resultado deixa de ser apenas uma tradução correta e passa a ser uma tradução atenta ao texto, ao contexto e às intenções que o atravessam.
Foi pensando nisso que uma pergunta começou a se formar.
Será que a tradução reflete o tradutor?
Ou será que, ao longo do tempo, o tradutor também é moldado pelos textos que traduz?
Cada escolha lexical, cada decisão de sentido, cada ajuste que fazemos para que um texto funcione em outra língua carrega algo do nosso olhar. Ao mesmo tempo, os textos que traduzimos nos atravessam, ampliam nosso repertório, nos ensinam novos modos de dizer e de pensar.
Talvez a tradução seja esse espaço de troca contínua.
Nem totalmente neutra, nem totalmente autoral.
Um lugar em que linguagem, leitura de mundo e experiência se encontram.
Essa não é uma conclusão fechada, mas uma reflexão em processo.
E talvez seja justamente isso que torna a tradução um trabalho tão humano.
E é justamente esse olhar que faz diferença quando alguém contrata uma tradução: prazo, público, tom, naturalidade e o risco de “estar correto” e ainda assim não funcionar.
Falo mais sobre esse lado prático no post de segunda, no Instagram.









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