Erro gramatical, inadequação terminológica e responsabilidade técnica: até onde vai o impacto de uma escolha na tradução?
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Na quarta-feira, em um post no Instagram, trouxe a expressão preservative-free e fiz a pergunta: como você traduziria esse termo?
À primeira vista, “livre de preservativos” pode parecer uma opção possível. A frase está gramaticalmente correta. Porém, no contexto farmacêutico e cosmético, preservative não tem relação com preservativo no sentido contraceptivo, mas com conservante químico. A tradução adequada, portanto, é “sem conservantes”.
Esse exemplo ajuda a entender uma distinção importante dentro da tradução profissional: nem todo problema é um erro gramatical, e nem toda frase correta é adequada ao campo técnico.
Erro gramatical: quando a forma compromete o texto
O erro gramatical compromete a clareza e a credibilidade do texto final. Concordância, regência, pontuação e estrutura são responsabilidades básicas do tradutor, principalmente porque a tradução também contempla a sua língua materna.
Se o texto final em português apresenta falhas estruturais, o problema não está no original. Está na execução.
Mas a qualidade de uma tradução não se resume a não errar a gramática.
Inadequação terminológica: quando a palavra existe, mas não pertence ao contexto
A inadequação terminológica acontece quando o tradutor escolhe um termo que existe na língua, mas não é adequado ao campo técnico.
No caso de preservative-free, “preservativo” é uma palavra existente em português. Não há erro gramatical. O que existe é uma escolha incompatível com o contexto.
É aqui que a leitura se torna essencial. A tradução começa antes da escrita. Começa na leitura atenta, na identificação do domínio do texto, na compreensão do público-alvo e na familiarização com a terminologia daquele campo.
A palavra certa depende do contexto certo.
Responsabilidade técnica: quando a tradução tem impacto real
Em textos técnicos, especialmente aqueles ligados à saúde, segurança ou regulamentação, a escolha terminológica ultrapassa o campo linguístico.
No Brasil, produtos que impactam a saúde pública seguem critérios definidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a ANVISA. A linguagem utilizada em rótulos, bulas e materiais informativos precisa estar alinhada às exigências regulatórias.
Uma tradução imprecisa pode gerar retrabalho, questionamentos ou até impedir a aprovação de um produto. Nesse caso, a tradução não é apenas uma escolha de palavras. Ela faz parte de um processo técnico.
Na literatura, uma escolha define forma e estilo. Na tradução técnica, ela define precisão da informação.
Entre o literal e o adequado existe uma decisão. E é nessa decisão que o tradutor assume sua responsabilidade.
Evitar erro gramatical é o mínimo. Escolher a terminologia adequada exige domínio e pesquisa. Compreender o impacto da informação traduzida exige consciência técnica.
Tradução técnica exige critério, pesquisa e responsabilidade.
Quando uma empresa contrata um tradutor, não está apenas terceirizando palavras. Está confiando a alguém a tarefa de representar sua informação, sua marca e, em alguns casos, sua responsabilidade legal diante de órgãos reguladores.




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